Há bases científicas para entendermos se a prática de Yoga é benéfica para o Sistema
Imunológico?

Elaborado por Denise Carmona

Muito é dito que a prática de Yoga exerce efeitos benéficos para o Sistema Imunológico. Será que temos evidências científicas para essa afirmação?Vamos lá… primeiro, o que é o Sistema Imunológico.

Como é de amplo conhecimento, o Sistema Imunológico (SI) é o sistema orgânico que responde com ativação de células e produção de moléculas para que um agente patogênico seja eliminado. Essa resposta também leva a um processo inflamatório onde o agente patogênico se instaurou, o que causa dor e lesão. Entretanto, para que essa resposta inflamatória não seja muito extensa, o próprio SI a controla, através da ativação de outras células e moléculas que regulam a resposta ativadora. No cenário perfeito, há o equilíbrio entre a resposta ativadora e a reguladora e a doença causada pelo agente patogênico cursa de maneira mais rápida e menos lesiva. Com boa alimentação, prática constante de exercícios físicos e sono de boa qualidade, esse cenário perfeito acontece na maioria das vezes.

Por vezes, entretanto, a resposta do organismo pode demorar ou não ser adequada e é quando a vacinação é a ajuda certa. Mas há casos, também, que a resposta imunológica é inadequada pois reage contra algo inócuo, às vezes componentes do meio ambiente (alergias a antígenos presentes no ar ou em alimentos) ou do próprio organismo (doenças autoimunes). Nesses casos, a resposta inflamatória deve ser controlada para que o SI não cause lesões no organismo.

Além da relação com alimentos e exercícios físicos, conhece-se hoje a intensa relação que o SI tem com o Sistema Nervoso e com o Sistema Endócrino. Nessa rede de conexões, respostas imunológicas podem ser acionadas ou reguladas sob diversos estímulos não imunológicos, como um quadro de depressão, ou ansiedade ou mesmo alteração hormonal. Como vemos, o organismo é bem complexo.

Como dito acima, uma boa alimentação, prática constante de exercícios físicos e um sono de qualidade ajudam o SI. Mais que isso, ajudam em toda a complexidade de interação entre todos esses sistemas que se comunicam.

O Yoga vai além da prática de exercício físico e quem pratica conhece todo bem estar que essa atividade exerce. Yoga integra as dimensões físicas, mentais e espirituais. Vários estudos demonstram seus efeitos no eixo hipófise-hipotálamo- adrenal, do Sistema Endócrino, tendo efeito, assim, em todos os sistemas que se comunica, incluindo o Imunológico.

Nos próximos parágrafos, farei a referência de evidências científicas dos efeitos benéficos do Yoga em doenças com fundo imunológico, com breve explicação delas e possíveis mecanismos pelos quais o Yoga, como complemento aos tratamentos convencionais, diminui sinais dessas doenças e impactam numa melhora da qualidade de vida das pessoas.

A Esclerose Múltipla é um distúrbio neurológico crônico, no qual o sistema imunológico lesa a mielina, componente da camada lipídica que encapa axônios neuronais e atua numa efetiva transmissão de sinais no Sistema Nervoso Central. Com a resposta imunológica dirigida contra a mielina, a condução neuronal é prejudicada levando a vários distúrbios e sintomas que incluem fadiga, perda ou diminuição da mobilidade, disfunção intestinal, dor crônica e depressão. Existem várias alternativas terapêuticas que incluem, por exemplo, a diminuição da resposta imunológica ou alívio dos sintomas. Os estudos abaixo mostram que, em comparação a grupos de pacientes que somente recebem os tratamentos convencionais, os que associam a prática de Yoga a esses tratamentos têm melhora significativa do quadro patológico. Num estudo feito na Boise University nos Estados Unidos, os pesquisadores viram que a prática de Yoga baseada em relaxamento (Yoga Nidra), durante seis semanas, foi capaz de diminuir a percepção de estresse nas pacientes com Esclerose Múltipla (1). Além de interferir nos componentes mentais vindos da Esclerose Múltipla, como fadiga mental, estresse e depressão, outros estudos também mostram efeitos positivos da prática de Yoga em componentes físicos, como equilíbrio, força e tremores musculares. Num estudo de pesquisadores da University of Ankara, na Turquia, foi observado que a prática de Yoga duas vezes por semana, durante 12 semanas foi capaz de melhorar o equilíbrio, tamanho do passo e velocidade de caminhada de participantes com Esclerose Múltipla (2).

A Artrite Reumatóide é uma das doenças autoimunes inflamatórias crônicas mais comuns, com vários efeitos adversos. Da mesma forma que a Esclerose Múltipla, a Artrite Reumatóide também tem fundo imunológico com liberação descontrolada de substâncias inflamatórias (citocinas inflamatórias). Caracteriza-se por dores e inchaço nas articulações periféricas. Está associada com hiperplasia sinovial, destruição da cartilagem e deformidades nas articulações, o que leva a uma reduzida qualidade de vida. Assim como ocorre em outras doenças autoimunes, pacientes com artrite reumatóide apresentam elevados índices de depressão derivados das incapacidades físicas. Um estudo feito por cientistas do All India Health Medical Science Institute, na Índia, documentou que a intervenção da prática de Yoga alterou de forma significativa parâmetros inflamatórios (níveis de moléculas oxidantes e inflamatórias) com redução da gravidade e atividade da doença (3). Nesse trabalho, os pesquisadores relatam que os ásanas foram adaptados para que os pacientes pudessem realizar dentro de seus limites musculares e articulares. Em seus protocolos, os pesquisadores relatam a prática de sequências envolvendo asanas como Trikonasana, Katichakrasana, Tadasana e Virabhadrasana entre outros. Recomendo a leitura da revisão feita por esses autores que detalham os sukshmavyayama, pranayamas, asanas e meditação utilizados na melhora dos pacientes com
artrite reumatoide (4).

Por fim, vamos falar da rinite alérgica, na qual há uma resposta imunológica desordenada, mas não para um componente do próprio organismo. A rinite alérgica é definida como uma reação inflamatória a antígenos aéreos, chamados de alérgenos, cujo mecanismo envolve linfócitos do tipo Th2, citocinas desse padrão imunológico e imunoglobulinas do tipo E. Os sintomas são caracterizados por espirros, coceira, congestão e secreção nasal. Esses alérgenos incluem pólen, ácaros da poeira doméstica e pelos de animais. A inflamação associada com a rinite alérgica pode reduzir o tamanho físico da passagem de ar pelas narinas devido à vasodilatação, aumento do fluxo sanguíneo e aumento da permeabilidade vascular. Cientistas da University of Chlalongkirn de Bangkok, Thailândia e da Indiana University, dos Estados Unidos, demonstraram que a prática de Hatha Yoga durante oito semanas (prática de 30 minutos, três vezes por semana) teve efeito benéfico na rinite alérgica por melhorar os sinais clínicos e alterar o padrão de citocinas. Observaram diminuição da congestão nasal, espirro, coceira e secreção. Por fim, o fluxo respiratório, altamente impactado pela mucosa nasal inflamada, foi significativamente aumentado no grupo que praticou, tanto comparado ao outro grupo, como comparado aos mesmos pacientes antes do início da prática de Yoga (5). Ainda com relação a doenças crônicas do trato respiratórios e de fundo imunológico, tem-se a asma. Um estudo de meta-análise, feito pela Uhong Kong University, China, conclui que, embora tenham alguns estudos mostrando o efeito benéfico da prática de yoga nos pacientes asmáticos, mais estudos são necessários devido aos diversos fatores que estão relacionados com esse quadro patológico e com a diversidade de métodos feitos nos diferentes trabalhos científicos (6).

Considerações finais

A ciência da psiconeuroimunologia tem dado evidências de que terapias alternativas, incluindo Yoga, pode e deve ser utilizada como complemento para tratamentos convencionais, principalmente em doenças imunológicas fortemente associas com a integração dos sistemas orgânicos. Cada vez mais, a ciência vai encontrando os mecanismos moleculares e celulares que estão relacionados com os efeitos benéficos da prática de Yoga nas
doenças de fundo imunológico. A literatura científica atual traz fortes evidências com relação aos benefícios do Yoga nos níveis de cortisol e marcadores inflamatórios como proteína Creativa, e citocinas como IL-1b, IL-6, TNF-a e INF-g. Mais detalhes imunológicos se encontram numa revisão publicada numa especializada revista científica Brain, Behavior & Immunity, em 2022 (7). Por fim, vemos que, cada vez mais, cientistas vão entendendo e explicando os efeitos benéficos do Yoga, que seus praticantes já vivenciam há muito tempo.

(1)- Pritchard et al., 2010. Impact of integrative restoration (iRest) meditation on perceived stress levels in multiple sclerosis and cancer outpatients. Stress Health 26, 233–237. doi: 10.1002/smi.1290
(2)- Guner e Innanici, 2015. Yoga therapy and ambulatory multiple sclero- sis assessment of gait analysis parameters, fatigue and balance. J. Bodyw. Mov. Ther. 19, 72–81. doi: 10.1016/j.jbmt.2014.04.004
(3)- Gautam et al, 2019. DOI: 10.3233/RNN-180875 Impact of yoga based mind-body intervention on systemic inflammatory markers and co-morbid depression in active Rheumatoid arthritis patients: A randomized controlled trial. Restor Neurol Neurosci 37, 41-59.
(4)- Gautam et al., 2021. Yoga and its impact on chronic inflammatory autoimmune arthritis. Frontiers in Bioscience, Elite, 13: 77-116.
(5)- Chanta et al., 2019. Effect of Hatha yoga training on rhinitis symptoms and cytokines in allergic rhinitis patients. Asian Pac J.Allergy Immunol DOI 10.12932/AP-260419-0547
(6)- Yang ZY, Zhong HB, Mao C, Yuan JQ, Huang Y, Wu XY, Gao YM, Tang JL. Yoga for asthma. Cochrane Database of Systematic Reviews 2016, Issue 4. Art. No.: CD010346. DOI: 10.1002/14651858.CD010346.pub2.
(7)- Estevao, C, 2022. The role of yoga in inflammatory markers. Brain, Behavior & ImmunityHealth 20- 100421 https://doi.org/10.1016/j.bbih.2022.100421